quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Agora, dele.

Ele tem uma televisão decente. Que por um acaso fica em cima do armário que era meu. Que por sinal fica na sala que era minha. Onde eu guardava maconha e as roupas do meu melhor amigo. Sala em que ele entrava noite e dia, onde ele ja implorou para dormir. E agora tudo é dele. O armário, a sala e talvez a maconha. Isso me deixa confusa. Mas de tudo isso, a única certeza que tenho, é que ele tem uma televisão decente.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Desabafo para um sujeito qualquer

Noite quente, o sono existia, só a vontade de dormir que não. Escuto tocar a música 'o tempo não para' no rádio, e junto com ela me vem à memória a lembrança de um sujeito qualquer. Me incomodava o fato de nunca ter escrito nada sobre ele antes. Me lembro de cada som agudo da voz dele cantando Cazuza. Sempre que ele ficava bêbado ele começava, eu ja sabia..era questão de segundos. Ele me olhava com cara de maníaco, algumas vezes como se quisesse me estuprar, mas ao mesmo tempo ele me abraçava quando eu sentia medo. Eu nunca vou saber o que ele sentia por mim de verdade, mas talvez eu saiba o que eu sentia por ele. Eu gostava da essência 'topo qualquer parada' que ele tinha. Bem direto, disposto a rastejar no meio da avenida até correr de mãos dadas comigo pelas escadas do shopping depois do cinema. Ele era o único que saia no meio do filme para comprar um copo de cerveja. Eu adorava a loucura dele, ela me dava medo, e por isso eu queria ele por perto. Eu sempre gostei de coisas que me destruiam. Percebo que tenho muito o que falar sobre esse sujeito qualquer. Talvez ele não seja tão qualquer assim. Nunca contei pra ele que eu sabia que ele tentou me matar, antes disso, tentou me estuprar, depois disso, roubou minhas cervejas e fumou metade do meu maço de cigarro me pedindo desculpas.Me lembro bem como as mãos dele tremiam. Confesso que quis matá-lo depois, mas hoje só digo obrigada; por ter pagado o taxi de volta, e por não ter deixado eu estrangular meu melhor amigo gay.

sábado, 9 de junho de 2012

Um complexo de desencadear.

Cheguei, liguei o ventilador e junto com ele a nostalgia. Incrível como aquele quarto tinha sempre o mesmo cheiro. Cheiro de sono, um cheiro meio doce, meio confuso e calmo. Eu queria ter dentro de mim a sensaçao que aquele quarto me dava. Eu o invadia com todos os meus vícios, com todos meus demônios, e de repente ele perdia o encanto e cheirava fumaça, cheirava a mim, cheirava desgraça. Meu pai ja me dizia que eu tinha um dom. Aquele de destruição.

domingo, 6 de maio de 2012

Doce melancolia

É com o coração triste que a alma transmite da melhor forma um bocado de palavras bonitas para outras pessoas tristes se identificarem. Palavras bonitas baseadas em um fundo opaco. Carolina lê as poesias de César e se emociona. Se questiona; palavras bonitas com um fundo triste me fazem chorar. Se não fossem tristes não seriam bonitas? Textos sem um grande final, seriam mais interessantes que textos com fundos alegres. O coração alegre não expressa a doce melancolia das palavras que comovem.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

2011

Eu passaria a vida toda lembrando de cada coisa que me aconteceu aquele ano. Eu passaria infinitas tardes contando, incontáveis noites rindo e intermináveis madrugadas chorando. Eu teria inspiração pra escrever por cem anos, assunto pra relembrar por duzentos. Muita vida pra um único ano. Eu poderia contar tudo, eu poderia chocar o mundo. Mas eu prefiro dormir...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Entenda como quiser.

Lembro que quando ela passava por mim
eu prendia a respiração.
Não era um fato de olfato,
era um fato de pele,
um fato de tom.
Talvez um pouco de nojo,
de presença perturbante,
um fato de pele que traz
um certo cheiro,
de nojo e receio,
talvez a minha própria podridão.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cheiro do fim


De repente em um silêncio assombroso
me pego olhando fixamente no mais profundo
e íntimo olhar de Manuel.
Faço tantas perguntas a respeito do que vejo,
que da minha boca só saem meros suspiros.
O que realmente sentíamos um pelo outro?
A intensidade era um traço marcante,
quando ódio, muito ódio, vontade de usar
as mãos.
Quando paixão, desesperadora,corpos no chão.
Manuel é uma incógnita e eu imprevisão,
não sabia certo o que sentia,
só sabia que tinha sentido um certo
cheiro amargo no ar,
aquele cheiro que te confunde,
que te da medo,
provoca choro e saudade,
talvez até uma certa liberdade,
o famoso cheiro do fim.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mil em uma

Me disseram que me pareço com Aurora,
outrora me disseram que me pareço com Olívia,
que me pareço com Mariana, com Patrícia,
com cor de bosta, com cheiro de vício.
Esqueceram de me dizer que me pareço com você,
que é de onde saem tantos artifícios.
Esqueceram de me dizer que não só pareço,
como também sou Bruna, Roberta, Letícia,
Anita, Verônica, Cíntia.
Só esqueceram de me dizer que me pareço comigo,
uma hora sou Aurora, outrora sou Cíntia,
permaneço Camila.
Uma hora liberta, outrora coberta,
uma hora apaixonada, outrora fria.
Mil em uma, não seria só Anita,
não seria só calor, não seria só amor,
não seria só madrugada, seria também
noite e dia.
Cansada, alegre e sem nome,
prazer, sou Joaquina.
Há uma Verônica em mil Carolinas,
há mil Letícias e Déboras em uma Joaquina.
Prazer, meu nome é confusão, mais conhecido
como mulher.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ja houve


Naquele apartamento,
praticamente um quarto de hotel,
o possível e o impossível ja havia acontecido.
Sexo sem amor, amor sem sexo, overdose.
Ja houve briga e um milhão de reconciliaçoes.
Ja houve paz, ja houve guerra,
ja houve idolatria, ja houve desprezo,
muitos gritos, muitos risos,
ja houve tristeza, ja houve alegria.
Ja houve famosos, ja houve vagabundos,
ja houve união e desafeto.
Odio cuspido na parede,
pingos de amor no sofá,
arte por toda parte.
Tentativa de assassinato,
tentativa de suicidio,
tentativa de voltar a viver,
sobrevivência.
Ja teve desesperança,
ja teve clamôr, desespero,
formigueiro.
Éramos formigas abaladas,
perdidas, enfadadas.
O doce era a droga,
o cigarro, a cerveja, a maconha.
Só nao havia Deus em meio a tanta
loucura.
só nao havia a vida em meio a tanta morte.
Só nao havia morte em meio a tanta vida.
Que vida..

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

'Seu' Cardoso rancoroso

Ninguém entenderia aquela simples pergunta que Cardoso
fez à graça, sentimental, Otília..
- 'Purquí' diabos tu vieste aqui?
Teu amor me esmaga, tire já meu paletó e se mande daqui!
O problema é que Cardoso não tem boca e Otília não tem ouvidos
o que resta é o paletó encardido desde os tempos de Jânio Quadros.
Pegue os charutos, acenda os cigarros, quebre uma garrafa ao meio
e pinte as ruas de São Paulo com teu sangue escarnecedor.
Dê um pouco de cor com seu próprio corpo, dê um pouco de paz
se matando.
Otília não entenderia tal declaração, até porque a pergunta ja
não faz mais sentido algum.
Cardoso jamais a perdoaria por ter roubado seu paletó...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Carta à Roberta


O que mais poderia me dizer Roberta?
Deixou a chave em cima da geladeira,
guardou a carne no freezer,
deixou o pó de café cair no chão da cozinha,
e disse que me amava.
O que eu poderia dizer a Roberta?
Que eu sou uma pobre escritora de melancolias,
com um toque de desamor,
com os dentes amarelos,
com os cabelos caindo,
com voz de treze anos
com alma de sessenta.
Querida Roberta, ninguém merece
me carregar como fardo.
Sou tão explosiva com a vida,
nem um pouco materialista,
nem tampouco socialista,
sou totalmente imediatista.
Quero as coisas no meu tempo,
e nesse tempo não te quero.
Roberta, não quero ninguém,
pois não mereço carregar o fardo
de ninguém.
Vivo bem com minhas tralhas,
vivo bem com minha farda
que me esconde do mundo.
Roberta, te peço que se me ama,
me aceite, e se me aceite,
me deixe.
Seus cabelos vermelhos me
embassam a vista ultimamente,
seu sutiãn de bolinhas me
impregna na mente, e fico vendo
essas malditas bolinhas em todo
lugar.
Diariamente, inconscientemente
mal percebo que desenho bolinhas
na mesa de jantar.
O jeito que tu faz com os lábios
quando quer me beijar,
Deixando cair gotas de saliva
no lado esquerdo da boca,
tem dia que me da nojo.
Roberta, ja não sei o que sinto por você,
sei que sou um ser humano eloquente
que não necessita de nojo, de amor, nem de ódio,
Me basto sozinha com todas essas qualidades.
Adeus.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Viagem ao Vilarejo


A minha arte era confundida com loucura
e prostituição.
E meus ombros carregavam a leveza
de não ter a culpa no meu coração.
Arte, desarte, obras em vão.
Meu egoísmo não deixava mais
eu escrever coisas bonitas.
Trágico, de tão irônico, talvez até lúdico,
diariamente me afogava em minhas canções.
Precisava da melancolia daquele vilarejo
para me lembrar da inspiração.
Era como eu via aquela pequena cidadezinha
interiorana, um vilarejo.
Não menosprezando, mas eu me indignava
com cada vida que havia naquele lugar.
Cada porta aberta, cada cachorro que passava.
Aquele ar engomado e amargo, aquelas casas
antigas que vibravam dor de tantas lembranças.
Tudo não passava de um passado não esquecido,
intrigante, emocionante, passivo.
Entro em uma casa histórica, onde um velho
amigo meu vive.
Mora só, coberto de ilusões materiais
e lembranças fraternais.
Quantos detalhes para se admirar..
Quantas balas ja foram atiradas naquele muro?
Quanta raiva foi lançada naquele momento?
Por quantas mãos ja passaram aquele relógio estilo bússola?
Quantas digitais diferentes teriam espalhadas por cada canto e copo
daquela casa?
Memórias fantasmas, lembranças cruéis.
Inveja e vingança andam de mãos dadas pelas ruas da cidade.
A mente se mantém inerte, presa e bitolada.
Não reconhecem o que é justo, quem sabe o que é justo?
Seu Gongo conhece os pecados de Dona Eliana
e o dono da quitanda viu Seu Miro da banca
de cigarros, infartar, pois bem, deixa pra la.
Tudo é lastimável por aqui, e aos poucos tudo está
se acabando, assim como todos se acabam por aqui.

Esôfago Dilacerado.

Tudo descia rasgando;
o ódio, a cerveja, o coração,
a fumaça, e a minha estupidez.
Tudo ia me dilacerando.
Eu queria tanto aquele ser,
eu queria tanto escrever,
eu queria tanto sentir,
queria tanto admirar..
Tudo que tinha era um cigarro
na mão e os ouvidos entupidos.
E mesmo assim o que mais me irritava
era tudo que descia rasgando.
O amor confundido com ódio,
o tesão com desafeto,
a vida com morte.
Excluí o ser da minha caixa,
só não conseguia excluir
da minha garganta.
Rasga, dilacera, arrebenta
meu esôfago.
O que salva minha vida?
Meu Deus, me alivie.
Pois ja não consigo engolir nem
meu próprio clamôr.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Aí vou eu

A pressa me impedia de fazer o que eu mais tinha tempo.
E eu tinha tanto tempo de sobra que não me sobrava tempo pra nada.
Adeus interior!